Ipad e Crime

To help the public feel comfortable with advanced technology, designers often rely on the strategy of incorporating instinctive traits and appealing to our instinctive reactions, such as in computer interfaces in which items are moved around by hands and fingers or by being blown on or even shaken.  (ANTONELLI, 2001, p. 11)

Os designers do aplicativo iBooks para iPad sabem muito bem o que isso significa: o aplicativo de calendário imita uma agenda com capa de couro; o aplicativo de livros dispõe as obras em “estantes de madeira” e ao arrastar o dedo sobre as páginas do livro, a folha vai dobrando – o texto da página de trás começa a aparecer – até passar a página completamente. A descrição acima talvez não transpareça o quão bobo isso parece. Será uma piada de mau gosto? Deboche? É realmente preciso fazer uma analogia visual e gestual tão mimética para o usuário se sentir confortável em consultar um calendário ou ler um livro?

A patética simulação do virar de páginas

Em 1999, quando a mídia digital ainda era considerada uma new media, Jay Bolter e Richard Grusin apresentaram a teoria da remediação, publicada em livro homônimo. Defenderam que a mídia digital se apropria de “técnicas, formas e significados sociais de outras mídias e tenta ou rivalizar-se ou remoldar-se em nome do real”. (BOLTER; GRUSIN, 1999, p. 65) Naquele contexto, imitar a mídia analógica era uma estratégia de afirmação, tal qual parece estar acontecendo com livros digitais hoje, presos ainda aos cânones dos impressos.

A consequência da remediação era uma relação de interdependência, em que uma mídia remoldava a outra. Até certo ponto, existia uma auto afirmação da mídia pelo que ela era e não apenas pelo que ela se assemelhava a seu predecessor analógico. Mesmo considerando o iPad uma inovação significativa, ampliando as interações gestuais na computação, não podemos esquecer que convivemos há quase 30 anos com computadores pessoais e muitas estratégias de incorporações institivas já foram apropriadas e incorporadas ou superadas. O tablet não é lançado em um ambiente de usuários completamente crus.

Ainda cabe refletir quais os limites eficazes dessas imitações. Uma situação é imitar gestos e estruturas meta textuais necessárias à navegação eficaz em uma obra, como acontece no dispositivo de leitura Amazon Kindle – praticamente um suporte para hipertexto em baixa resolução. Outra é fazer imitações puramente ornamentais crente que o usuário guardará seus livros mais feliz e confiante diante de uma “estante de madeira” feita de pixels coloridos.

Referências

ANTONELLI, Paola. Talk to me: Design and Communication between People and Objects. Catálogo de exposição. New York: MoMA, 2011.

BOLTER, Jay; GRUSIN, Richard. Remediation: Understanding new media. Cambridge: MIT Press, 1999.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s